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PESQUISAS VIA INTERNET E ENQUETES,
SUAS VERDADES E MENTIRAS

A Internet é um meio rápido e barato de se fazer "pesquisa", mas que tipo de "pesquisa" dá para se fazer?

E que tipo de representatividade se espera deste tipo de levantamento?   

Primordialmente, devemos levar em conta três aspectos que envolvem as pesquisas e enquetes na Internet: 

  • Trabalhamos com um universo que representa apenas um segmento ainda pequeno e elitizado da população brasileira (algo em torno de 13%, concentrados nas classes A e B);

  • Os internautas podem ser subdivididos em grupos, com diferentes hábitos de navegação, freqüentando diferentes sites no imenso oceano da web. É o que chamamos de comunidades virtuais, difíceis de serem delimitadas e portanto, mais ainda de serem representadas por meio de amostras; 
  • Por fim, o processo de amostragem da maioria das enquetes na Internet caracteriza-se pela resposta voluntária, ou seja, responde quem quer. 

Assim, o pesquisador controla muito pouco o processo de composição da amostra, para estar seguro sobre o quão adequadamente ela representa este universo pouco definido. 

  • A questão da representatividade de uma amostra:

Podemos traçar um paralelo interessante entre Internet hoje no Brasil e o telefone nos E.U.A. em meados da década de 30. Um caso clássico é o do jornal Liberaty Digest, que realizou um levantamento de intenção de votos, onde foram entrevistados cerca de dois milhões de pessoas (número muito maior do que necessário). A pesquisa apontou vitória para Alfred Landon, quando na realidade Franklin Rooselvet venceu as eleições presidenciais americanas por ampla margem.  

O problema é que a amostra do Digest foi tirada de listas telefônicas, entre outras fontes. As pessoas que tinham telefone não representavam adequadamente a população eleitora como um todo. Se uma amostra não é extraída aleatoriamente, não há como se prever o quanto os dados obtidos através dela se afastarão da realidade. 

Outra questão é que, como em toda a pesquisa com amostra de resposta voluntária, seja via Internet, seja por mala-direta, é necessário compreender que os mais aficionados pelo tema da pesquisa ou que os mais mobilizados, satisfeitos ou insatisfeitos, tendem a se "eleger" com muito mais facilidade como respondentes do que uma maioria de acomodados ou indiferentes, muitas vezes detentores de importantes informações para a pesquisa. 

Na maioria das enquetes realizadas na Internet, devemos assumir que estamos tratando de uma amostra muito específica, representada por internautas que acessaram aquele site, naquele período e se elegeram para responder as questões, o que contraria a teoria de amostras aleatórias, onde todos os indivíduos têm igual chance de figurar na amostra.  

Por outro lado, entendemos que pesquisa de mercado, com todos os cuidados que requer, não é a única fonte de informação. Experiência, intuição e principalmente bom senso auxiliam muito no processo de tomada de decisão, mas são mais sujeitas a erros. 

Assim, temos que analisar com critério os resultados de enquetes, pois representam apenas uma pista das opiniões de um determinado público e não esquecer que pode ser uma pista falsa ou incompleta daquilo que desejamos conhecer. 

O fundamental é que haja transparência por parte dos responsáveis pela coleta e divulgação das informações, esclarecendo as limitações das ferramentas disponíveis e estabelecendo os limites do que é tecnicamente aceitável. 

 

Luciana Guerra